1 Não é de hoje que a maldade dos inimigos da verdade tenta corromper a reta doutrina da piedade, mas, servindo-se de antigos erros já condenados e misturando-os com novas blasfêmias, eles geram uma prole bastarda e perniciosa. Assim também estes que agora surgem, a quem chamamos de maniqueus e paulicianos, reviveram as fábulas corrompidas de Mani e as espalharam como um veneno mortal.
2 Eles ousam introduzir dois princípios incriados, um bom e outro mau, separando o Criador de todas as coisas visíveis daquele a quem chamam de Deus verdadeiro. Afirmam que o Deus da Lei e dos Profetas não é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, mas um arquiteto da matéria e da injustiça, atribuindo a Ele a responsabilidade pelos males do mundo, blasfemando assim contra a própria criação e contra o Altíssimo
3 Eles não apenas desonram o Criador, mas também cobrem de calúnias os santos profetas que pregaram a verdade de Deus, chamando-os de servos de um poder maligno e dizendo que as palavras proclamadas por eles foram ditas por inspiração de um espírito enganador e não pelo Deus verdadeiro.
4 Dessa forma, eles cortam e destroem a harmonia dos dois Testamentos, pretendendo que a Antiga Aliança seja totalmente estranha e contrária à economia salvífica de Cristo, quando na verdade a Lei e os Profetas dão testemunho claro do único e verdadeiro Deus e Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.
5 Pois eles afirmam que as trevas e a matéria possuem uma existência própria, sem princípio e incriada, equiparando assim a fraqueza da corrupção ao poder daquele que é eterno e inalcançável por qualquer mal, esquecendo-se de que nada existe que não tenha sido trazido à existência pelo único Criador de todas as coisas.
6 Portanto, ao introduzirem essa monstruosa dualidade de princípios, eles caem na mesma impiedade de Marcião e de Mani, despojando a divindade de sua soberania absoluta e inventando uma tirania de potências opostas que dividem o governo do universo entre si de maneira ímpia e absurda.
7 Eles ousam desfigurar a economia da salvação, negando que o Filho de Deus assumiu uma verdadeira e real carne humana da Virgem Santa, e fingem que ele passou através dela como através de um canal ou de uma ilusão fantasiosa, para que não parecesse que o Criador do corpo humano era o Deus verdadeiro.
8 Pois se o corpo de Cristo fosse apenas uma miragem ou uma substância celeste estranha à nossa natureza, vã teria sido a nossa redenção, e vã a Sua paixão voluntária na cruz, pela qual fomos reconciliados com o Pai e libertados da tirania do pecado e da corrupção.
9 Além disso, eles cospem e voltam o rosto com indignação contra o sinal venerável e vivificante da cruz, considerando-o um instrumento de maldição e vergonha, porque desconhecem o poder daquele que por meio dela triunfou sobre os principados e potestades.
10 Pois, assim como rejeitam a matéria criada por Deus como sendo má por natureza, eles também desprezam tudo o que é visível e sensível na Igreja, substituindo os sacramentos instituídos por Cristo por suas próprias fábulas vazias e rituais ocultos que não passam de zombaria à verdade.
11 Eles invalidam o batismo salvífico da água, que foi transmitido por nosso Senhor e Salvador a toda a Sua Igreja, fingindo que a purificação se dá apenas por palavras vazias ou por um rito imaginário que não possui a graça do Espírito Santo.
11 Pois, ao separarem a criatura visível do poder do Criador, eles privam os homens da verdadeira regeneração, introduzindo em vez do banho da palingenesia uma ilusão estéril que apenas sela a alma no erro e na separação da comunhão eclesiástica.