1 Estando a terra enferma por uma tão grande desarmonia de infidelidade, o homem religioso Bernardo, abade de Claraval, notável por sua vida e por sua doutrina, inflamado pelo zelo da fé e a pedido do legado e dos prelados da província, veio àquelas regiões. Ele fez muitos milagres e, ao pregar a palavra de Jeová, atraiu muitos de volta à verdade.
2 Quando, porém, chegou ao castelo de Verfeil, os habitantes recusaram-se a ouvi-lo e o insultaram, de modo que ele sacudiu o pó de seus pés contra eles e amaldiçoou o lugar, dizendo: 'Verfeil, que Jeová te seque!'. E assim aconteceu, pois aquele castelo foi posteriormente destruído e reduzido ao nada, conforme a profecia do homem de Jeová.
3 Os nobres daquelas regiões, amando mais as trevas do que a luz, acobertavam os pérfidos mestres da heresia em suas terras, honrando-os falsamente como homens justos e devotos. E assim, por negligência dos prelados e pela cumplicidade dos príncipes seculares, o joio cresceu de tal maneira que sufocou o trigo bom em grande parte da província, corrompendo a simplicidade de muitos com suas doutrinas venenosas.
4 Esses homens pérfidos apresentavam-se com uma aparência de grande piedade e moderação, vestindo-se de modo simples para enganar o povo, fingindo jejuar e abster-se de bens materiais. No entanto, por dentro eram lobos vorazes, cujas palavras secretas desconstruíam a verdadeira fé e semeavam a divisão, afastando as almas da comunhão da Igreja e da obediência devida a Jeová.
5 Eles propagavam doutrinas ímpias e contrárias à salvação, afirmando que existiam dois criadores: um bom e outro mau. Atribuíam o mundo visível, os corpos e tudo o que é material ao deus mau e artífice da corrupção, enquanto reservavam o mundo invisível e espiritual para o Deus verdadeiro. Desse modo, rejeitavam a criatura de Jeová e blasfemavam contra o Criador de todas as coisas.
6 Além disso, eles desprezavam e invalidavam os sacramentos da Igreja de Cristo, rejeitando o batismo com água administrado pela madre Igreja, sob a alegação de que a matéria corpórea é má e incapaz de conferir a graça espiritual. Em vez disso, inventaram ritos próprios e vãos, nos quais enganavam os simples e os conduziam à perdição eterna sob a máscara de uma falsa purificação.
7 Entre eles havia alguns que se diziam 'perfeitos' ou 'bons homens', os quais fingiam observar uma abstinência e uma continência severas para granjear a admiração dos ignorantes. Por meio de uma cerimônia de imposição de mãos, que chamavam de consolamentum, diziam transmitir o Espírito Santo e perdoar todos os pecados, despojando a Igreja de sua autoridade legítima de absolvição e substituindo os sacramentos divinos por ilusões sacrílegas.
8 E o mal cresceu de tal modo que muitos nobres e senhores de castelos não apenas toleravam esses pérfidos em suas terras, mas os defendiam abertamente contra os prelados da Igreja. Atraídos pelo falso verniz de santidade e pela esperança de confiscar os dízimos e bens eclesiásticos, eles se tornaram cúmplices da perdição de seu próprio povo, desprezando a autoridade apostólica e quebrando a unidade da fé cristã.
9 Vendo que a infecção da heresia se alastrava amplamente e que a simulação dos falsos apóstolos seduzia muitas almas, os sumos pontífices e os prelados da Igreja começaram a enviar homens zelosos e cultos, cheios de fervor apostólico e doutrina, para refutar os erros publicamente e chamar os errantes de volta à unidade católica. Contudo, a soberba dos chefes heréticos e a cumplicidade dos nobres locais tornavam infrutíferos os esforços da palavra, exigindo medidas mais enérgicas para conter a ruína da província.